Aterrar em Cabo Verde foi um assentar de raízes. Á chegada, depois de um salgado e renovador mergulho no mar do Tarrafal, esperava-me com uma “cachupa refogada com ovo estrelado” a reconhecida bailarina Marisa Correia, mentora do Grupo de Batucadeiras Delta Ramantxada, um dos coletivos de batuku mais antigos e reverenciados da Ilha de Santiago. Fui acolhida com alguma curiosidade e surpresa no pátio de casa da Marisa, onde se reúnem sempre que possivel ao fim da tarde, para treinar, para conversar e projetar os próximos passos a dar no seu vasto percurso artístico. O ensaio tinha como objectivo a preparação do espetáculo comemorativo do 25º aniversário do grupo. Mulheres e meninas, avós e mamãs com seus filhos ao peito sentavam-se em círculo, com suas xabetas (instrumentos) no colo, aquecendo, brincando e criando todo um ambiente de força e tradição. Afinavam-se as vozes, de forma hierárquica iam soltando os seus “cunberso sabi”, canções, histórias, homenagens e rezos que atravessam a história das “badias”. Com um forte teor social e político, esta forma de cantar, mantém vivas as mulheres que mantiveram viva a tradição do batuku, as mulheres que foram exemplos de força e resiliência. Seus nomes são entoados, são honrados, são inspiração para as jovens que seguem esta cultura e com ela sustentam o seu modo de vida. O “cunbersu sabi” é uma introdução, chega devagar, respeita a sua narrativa, ainda sem dança, assim que terminado, as xabetas aceleram e aceleram, as meninas e mulheres vão chegando ao centro do círculo, cada uma na sua vez, voltam-se de costas para quem toca, olhos postos no céu, pés ancorados na terra e entram num transe que parece libertar todos aqueles que em algum momento da história deste e de outros povos viveram aprisionados. Acompanhando o ritmo frenético e liberador do batuku, as ancas ganham asas, giram, sacodem e são protagonistas de movimentos de isolamento hipnóticos. A postura do corpo é firme, altiva, enraizada e alongada, como um canal que une mulheres ao céu e à terra. O tronco alonga-se, o diafragma sobe, o ventre desce, cria-se um espaço único no corpo, como se este precisasse de crescer para assimilar o tanto que ali se relembra. As mulheres dão co torno (dançam com a anca). Os movimentos apesar de repetidos parecem sempre surpreender, o corpo assume duas entidades, uma que se move (pernas e anca) e o restante que se sustem, de cabeça erguida, de mãos voltadas para cima, como se esperassem uma dádiva, uma força divina que as encarna, enchendo-as de força e esperança.
Numa pausa para rir e trocar de posições, partilhei o meu entusiasmo e emoção para um sorriso generoso que me tinha estado a ensinar os dois ritmos da xabeta e disse-lhe o quão era especial, o batuku ter sobrevivido à imposição colonial e a tantas outras adversidades. De novo, o sorriso generoso rasgou-se, encheu o seu peito de ar e respondeu-me: “kretxeu, nhos é guerreira” (querida nós somos guerreiras). Ali se passaram horas, as vozes e ritmos percutidos trepavam o Monte Graciosa e pousavam no mar. Foi numa quinta-feira, no Tarrafal, a minha chegada.